Era outra época da
aviação, mais rústica, aeronaves turbo-hélices, aeroportos menores, pelo
interior do Brasil, nessa época a Varig operava com um avião pequeno que
pousava em qualquer pista, o famoso Avro, sempre operavam somente três tripulantes, piloto,
copiloto e um comissário, e algumas vezes acompanhavam um mecânico de voo, que
como sempre era o mesmo, os tripulantes já o chamavam de Chico Anísio (devido
ser parecido com o humorista) e esse rapaz passou, acredito eu, ter sido a maior vergonha da vida dele,como vou descrever a seguir:
no Avro, havia uma porta
de acesso externo
que ficava atrás do espelho do banheiro em frente ao vaso, que levava ao
compartimento de carga do avião, e o responsável pelo fechamento dessa porta
era sempre o comissário, mas que um dia,com
o avião em solo, o Chico resolveu fazer o número dois, e em um dado momento um
funcionário do aeroporto abriu a porta erradamente por fora, e pronto Chico
ficou de calças arriadas para o aeroporto inteiro ver, foi uma risada só.
Eram tempos difíceis
na aviação, o comissário fazia tudo, cuidava dos passageiros, da carga, do
balanceamento e o pior recolhia em um balde que ficava preso embaixo do toalete
do avião, os excrementos do banheiro, e depois despejava o conteúdo ao lado da
roda direita da aeronave, longe da porta por causa do mau cheiro, mas sempre,
em troca de uma caixa de lanche, o pessoal da bagagem fazia esse serviço sujo,
caixa de lanche naquela época valia ouro, já os demais tripulantes comandante e
copiloto no máximo verificavam o motor e pneus, uma moleza, sobrava tudo para o
comissário, nas escalas, pois naquela época pessoal de terra (apoio) era
raríssimo. Sempre a chegada destes voos da Varig nestas localidades, era muito esperada por todos, pois significava uma integração
com o mundo externo, já que
os aviões traziam os
jornais do dia da capital, e isso, em época que não havia internet, era
importante para a população se conectar com o mundo de fora, sem contar as
encomendas
e outros benefícios.
O Avro era um avião seguro pequeno, que
fazia curtas e médias distâncias, mas que teve um acidente registrado em 1975
em Goiás na localidade de Pedro Afonso, onde o avião após decolar, teve que
retornar por problemas técnicos, e ao tentar
pousar bateu em uma casa matando 3 ocupantes da casa e o copiloto Lemos, os
demais tripulantes, sendo que o comissário Nelson, um português, narrou que sobreviveu, porque se
sentou no último assento da cabine, ignorando o assento dos tripulantes, que no
pouso voou longe, ou seja, se estivesse lá, teria morrido, assim é a vida, o
comandante quebrou uma perna e os 12
passageiros a bordo saíram sem um arranhão, esse fato, serve para se ter uma
ideia de onde este avião pousava, no interior do Brasil e da precariedade dos
primórdios da
aviação. Este avião tem uma
história engraçada que me foi contada por um colega de voo daquele tempo e
conta sobre um comissário antigo, já falecido, o comissário Saad, um turco e negociante, que nestes voos pelo
interior com várias escalas, passava as caixas de lanche rapidamente, para,
logo depois usando o próprio braço de expositor, saia pela cabine do avião
oferecendo aos passageiros, os relógios, gravatas, e outras muambas que ele
comprava em Manaus. Ele sempre vendia, e os passageiros, pessoas simples e
garimpeiros com dinheiro compravam muito essas muambas, realmente esse
comissário foi o precursor do Free
Shopping a bordo das
aeronaves.
VOAR UM GRANDE LANCE . HISTÓRIAS DA AVIAÇÃO.





















